quarta-feira, 8 de maio de 2013

SERÁ QUE PRECISO DE TUDO ISSO?



Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidades?"
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã e perguntei: 
- Não foi à aula?  - ela respondeu:  
- Não, tenho aula à tarde. - comemorei: 
- Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde. 
- Não - retrucou ela - Tenho tanta coisa de manhã...
- Que tanta coisa? - perguntei. 
- Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina..., e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: Que pena, Daniela não disse: tenho aula de meditação!
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica: hoje, tem sessenta  academias de ginástica e três livrarias. Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à  malhação do espírito Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 
Como estava o defunto?'
- Olha uma maravilha, não tinha uma celulite!
Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nehuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais. (grifos meus). A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!"
O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse. 

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média. as cidades adquiriam status construindo uma catedral: hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas..
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar a vista, sente-se no reino dos céus. Porém quem tem que passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...

Felizmente, terminaram todos na eucaristia pó-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer dos MacDonalds...Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático'. Diante de seus olhares espantados, explico: 


' Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!






Nossos agradecimentos ao Frei Betto
Iracema Alves / jornalista cadeirante 

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