domingo, 16 de fevereiro de 2014

* O DESABAFO DE UM JORNALISTA

"Nós jornalistas, estamos de luto. A família de Santiago Andrade está de luto. Não nossos patrões que fazem do jornalismo um espetáculo de horrores. Que colocam na frentes das câmaras âncoras despreparados e irresponsáveis que vomitam seus preconceitos e ódios". O comentário é de Florestan Fernandes Jr.** jornalista, em artigo publicado pelo site Pragmatismo Político, em 13/02/2014.
"Vai ser rápido, três takes", foi o que disse Santiago ao sair da redação. A expressão banal usada com frequência por repórteres e cinegrafistas quando têm a tarefa de gravar um assunto que não demanda muito tempo, agora merece uma longa e demorada reflexão. Morreu um repórter do cotidiano, que colocava sua vida em risco quase que diariamente na nobre tarefa de informar. Com suas imagens ajudou a aumentar a audiência de telejornais. Certamente nunca teve o reconhecimento financeiro de seu importante trabalho. Como todos os colegas de profissão, tinha um salário miserável pelo risco que corria. Mas isso não é o mais importante. Ele já está morto. Morreu registrando as cenas de barbárie de um país que, pela primeira vez, se olha no espelho e vê um rosto marcado pelas cicatrizes de centenas de anos e abandono e descaso. De um país de poucos, de uma justiça para poucos, de terras nas mãos de poucos, da educação para poucos, de riqueza para poucos. Um país de uma elite arrogante, perversa e preconceituosa, que por séculos controla a política em todos os níveis; estadual, municipal e federal.
Nós jornalistas, sim, estamos de luto. A família de Santiago Andrade está de luto. A sociedade brasileira mais uma vez está de luto. Não nosso patrões que fazem do jornalismo um espetáculo dos horrores. Que colocam na frente das câmaras âncoras despreparados e irresponsáveis que vomitam seus preconceitos e ódios. Jornalismo de baixo nível que usa e abusa do sensacionalismo para garantir audiência. De "âncoras" desafiando o bom senso todos os dias com um pensamento esquizofrênico e preconceituoso. Um jornalismo transvestido de notícia  que manipula dados, denúncias e, em vez de levar conhecimento, cultura e educação, faz da notícia um controle de mentes. São os Black Blocs da comunicação. Ajudaram e continuam ajudando a destruir os valores mais importantes da cidadania e de justiça social. Tudo cinicamente justificado pela liberdade de expressão. Tudo para manter o status quo de uma elite atrasada e mesquinha que realmente não quer abrir mão de seus privilégios.

** Florestan Fernandes Júnior é jornalista com ampla experiência em telejornalismo. Filho do renomado sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995).
Para Senhora Andrade e Vanessa
"Que parem os relógios, cale o telefone, jogue ao cão um osso e que não ladre mais. Que os aviões gemendo acima em círculos, escrevam contra o céu o anúncio Santiago Andrade morreu. Que os pombos guardem luto com laço no pescoço; que os guardas usem finas luvas de cor breu. Ele era nosso norte, sul, leste, oeste, enquanto viveu; era nossos dias úteis, nossos fins de semana, nosso dia a dia. É hora de apagar as estrelas, e hora de guardar a lua, desmontar o sol, despejar o mar, jogar fora as flores. Nada há de mais certo doravante, a não ser as saudades eternas de uma espoas e uma filha e seus verdadeiros amigos".
W.H.Ander - por mim copiado em um cinema de Buenos Aires em 1999 (I.A)
* Obrigada querido mestre.
Iracema Alves/ jornalista cadeirante/por mim digitado em 16/02/2014
Participação: Wiglinews 

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