segunda-feira, 12 de maio de 2014

Fifa avisa aos torcedores que vão à Copa: o Brasil não é a Alemanha

Por Jamil Chade, correspondente - O Estado de S. Paulo.

Para a entidade, o maior desafio do Mundial será superar a falta de estrutura e quem vai sofrer é o torcedor estrangeiro

Valcke diz que governo Lula e Ricardo Teixeira pediram à Fifa para que as seleções não ficassem em apenas uma região e que a Fifa acreditou que, em cinco anos, a infraestrutura de transporte estaria pronta

GENEBRA - A Fifa alerta aos milhares de torcedores estrangeiros que, nas próximas semanas começarão a desembarcar no Brasil para a Copa: não adotem os mesmos comportamentos e o mesmo planejamento como se estivessem na Alemanha na Copa de 2006. Quem reconhece isso é o próprio secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke. "Não apareça (no Brasil) achando que é a Alemanha", disse. Segundo ele foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a CBF - Confederação Brasileira de Futebol - de Ricardo Teixeira que insistiram que a Copa teria de ocorrer em todos o país e que as seleções não poderiam jogar apenas em uma região*. Para o futuro, Valcke aponta que a experiência da Fifa no Brasil deva levar a entidade a exigir que as futuras sedes se comprometam de uma forma rigorosa às exigências da entidade antes de ganhar o direito de sediar o evento.
Em uma conversa com agências internacionais nesta semana em Zurique, ele admitiu que, desta vez no Brasil, os torcedores não poderão nem dormir em seus carros ou barracas como fizeram em 2006, na Alemanha e nem usar trens para ir de uma sede a outra. O CEO da Fifa é claro em alertar que, em 2014, quem mais vai sofrer durante a Copa do Mundo no Brasil por conta das distâncias, falta de estrutura, preços altos, insegurança e falta de transportes são os torcedores. "Eu sei que é difícil falar sem criar uma série de problemas. Mas minha mensagem para os torcedores é que tenham certeza de que estará organizado quando chegarem ao Brasil", disse. "Não há como dormir na praia, porque é inverno. Garanta sua acomodação. Não há como chegar com uma mochila e começar a andar. Não existem trens, não se pode dirigir de uma sede à outra", alertou.
"Não apareçam o Brasil pensando que é Alemanha,  não é fácil se mover pelo país. Na Alemanha, você poderia dormir no carro, No Brasil não", disse. "O maior desafio será para eles (torcedores). "Não será para a imprensa, não será para os times e nem dirigentes. Será para os torcedores", alertou. Ele admitiu que em 2009, a Fifa sabia dos limites do Brasil em relação à infraestrutura de aeroportos. Mas a aposta era de que haveria tempo suficiente para que todas as reformas fossem feitas. "Sabíamos disso. Mas era em 2009 e podemos esperar que você tem cinco anos para um país garantir que as estruturas estejam instaladas para entregar o que havia sido acordado". "Lula - Valcke deixou claro que a decisão de estruturar a Copa da forma que ela vai ocorrer não foi ideia da Fifa. Segundo ele foi o governo brasileiro , ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Ricardo Teixeira que fizeram questão de insistir com a Fifa de que a Copa teria de ocorrer em doze cidades e que as seleções não poderiam ficar em apenas uma região do País. A Fifa pede apenas oito sedes!
"É verdade que você multiplica os riscos ao ter mais estádios. Mas vivemos uma situação em que tínhamos um governo e um presidente, que naquele momento era Lula, que te explicam que a Copa deve ser para todo o Brasil, e não apenas para poucas cidades", disse. Valcke também deixou claro que o pedido para a Copa se estruturasse dessa forma também veio de Ricardo Teixeira. O dirigente da Fifa admitiu que o "lógico" seria dividir os 32 times em quatro grupos regionais, justamente para evitar que tivessem de sair de Manaus e jogar em Porte Alegre, de São Paulo à Recife. "Isso evitaria que eles tivessem de se mover para outras zonas do país", declarou. Mas a Fifa acabou sendo obrigada a abandonar a ideia de dividir o país em quatro, justamente por conta da insistência da CBF e do governo de que a seleção brasileira iria percorrer o Brasil em seus jogos. Segundo Valcke, esse também foi um pedido do Brasil. "Eles não queriam que o Brasil jogasse apenas em uma parte do país".  O problema é que,  para o calendário da Copa funcionar, todos então teriam que viajar. Valcke, em 2007, foi pago pela CBF como consultor para ajudar a candidatura brasileira.
Valcke ainda apontou que a mudança de governo no Brasil no meio da preparação também afetou o andamento do processo. "Encaramos uma eleição geral no Brasil e não foi fácil sair de Luiz Inácio Lula da Silva para uma nova presidente. sempre leva algum tempo para um novo governo entrar nos assuntos e tivemos também um número elevado de mudanças de ministros", disse. Um deles, Orlando Silva, acabou caindo por conta de suspeitas de irregularidades. 
Futuro - Valcke não escondeu que a experiência no Brasil o leva a pensar que a Fifa, para as futuras Copas, deve adotar uma nova postura e exigir maiores compromissos do país sede. "deve ser pelo menos parte do processo de candidatura que haja compromisso do país em uma série de pontos". Uma opção, segundo ele, é que haja uma decisão vinda do Poder Legislativo sobre esses compromissos, e não apenas do presidente no momento da escolha do país. "Não pode ser apenas a decisão do presidente ou de um ministro. Mas deve ser apoiado pelo Senado, Congresso ou Assembléia Nacional." Isso, segundo ele, evitaria "potenciais conflitos". Valcke ainda se queixou da imprensa, apontando que ele havia se transformado na pessoa que é mais citada quando há uma crítica a ser feita. Ele citou um estudo que avaliou que, em 63% dos casos, a imprensa apenas reproduziu comentários que ele teceu sobre a Copa do Mundo.


Postado por Livre para Voar em 12/05/2014 às 20:54 horas

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